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Um Conto Carioca

Era no cair da noite que o trabalho se encerrava. Horas e mais horas codificando no maldito Excel. Colunas e linhas e planilhas de nada. Sala ampla, baia apertada. Luz branca, quase pálida.
Uma secretária feia e ranzinza, o vício no café, o mau hálito depois do almoço no árabe, a camisa social barata, o constrangimento de um elevador lotado e o desodorante da manhã que já não faz mais efeito.
Presidente Vargas.
Prédios feios se erguem cinzas até os céus.
Cinzas.
O que resta de beleza segue mal cuidada e o trabalho por aqui já está encerrado.
“Ficar para um chopp com sardinha? Não, Otávio e Marquinhos não. Otávio é tranquilo, Marquinhos é mala. Ganhou um aumento: tira 4.000 e eu ganho só 3.”
“Sexta feira o transito é horrível. Chega logo, merda de ônibus. Vamos lá que hoje é dia de meter na Priscila.”
Priscilla.
Cabelos negros, pele morena, dentes cinzas, barriguda, vascaína. Trinta e oito anos. Gosta de Periquita com queijo francês. O pai era guarda municipal e a mãe inspetora de escola. Ela, geógrafa.
“Eita, porra”.
Sentiu o cordãozinho de ouro em volta do pescoço se rasgar. Olhou para o lado nos olhos injetados de moleque preto cheirado de cola, xingando, chutando. Pôs a mão no pescoço ardendo.
Mais quatro moleques pretos cheirados de cola. Sem camisa, de boné.
Uma espetada.
Duas.
Três.
Quatro.
E a quinta bem mais forte.
E os moleques correram. E ele caiu. E o sangue vazava, manchando a camisa branca.
Frenesi dos passantes.
A luz fluorescente das farmácias atordoando sua visão. Raia, Pacheco, Venâncio. Pramil, Engov, Dorflex. As sirenes da ambulância. “Cabo Silva”, ele conseguiu ler.
Colocado na maca,

fechou os olhos.

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