Foi depois de uma corrida na praia, quando fui comer ceviche na casa de um amigo, que fomos apresentados. Eu. E a música de Rubel. Sua voz e seu violão.
O disquinho (são só sete músicas) ouvi online. Na verdade ouvi e vi, já que a obra se abre no site do próprio álbum acompanhada da capa de muito bom gosto de Pedro Zylbersztajn, meu completo desconhecido. Assim como o são Ofer Shouval, violão, bandolim e voz, Benton Allen, banjo e voz, Wesley Maffly, violão, Taylor Tazewell, acordeão, Peter Farago, percussão e Michael Leberknight, baixo, músicos de Pearl e companheiros de Rubel.
Mas o próprio Rubel, carioca, explica: o disco é fruto de sua vivência em uma casa chamada Pearl, quando, em 2011, foi morar em Austin. Casa essa onde conheceu “uns bons malucos que viviam sem premeditar o próximo passo, nem planejar o futuro; um povo que fazia música todo dia e toda hora com a mais sincera vontade”. (Eis aí Ofer, Benton, Wesley, Taylor, Tazewell, Peter e Michael.) Ele é uma tentativa, precisamente acertada, diga-se de passagem, de registrar essa experiência. “Um relato cantado dos meses em Pearl”.
O velho e o mar, a primeira faixa, se anuncia no título mais em tom de homenagem do que prepotência. É logo depois de uma overture de cordas - uma mistura do banjo americano e do violão brasileiro espraiada por todo o disco - que ela transporta e desperta com seu mantra, “when you awake inside”, o ouvinte de Pearl para um mundo de chegadas e de partidas. Um mundo de vento e de mar que se encerra em vôo e acordeão.
É seguida por mascarados, uma balada em ritmo de surf music traçando, a partir da máscara como metáfora, um retrato bem humorado de um encontrar-se em si mesmo que culmina em uma citação de Vinícius de Moraes: “A vida só se dá para quem se deu”.
Depois “Tem o verde do mato e tem o branco do concreto e tem o céu”, dentre muitas outras coisas e o langor do amor. É o que anuncia a faixa que dá titulo ao disco. É um retrato onírico dessa casa que, se para Rubel é de concreto e mato e céu e moças, para nós é de sonho - lindo, distante e mágico - para o qual somos convidados, mas não sem antes ouvir a advertência: venham preparados porque “dá uma vontade de ficar”.

Pois é dessa casa, completamente mergulhada em uma amálgama américo-brasileira de ritmos, que sai quando bate aquela saudade. A segunda música mais longa, mas também a mais popular do disco. É um xote country, um xaxado folk e é um pedido de casamento que não é. É de derreter o coração de qualquer menina. É de fazer qualquer homem ter vontade dos olhos gigantes dessa tal mulher.
Daí cheguei a minha canção favorita do disco. Ben - um conselho singelo e melancólico a um moleque safado - não é uma canção de ninar, mas uma canção de viver cantada para uma criança. Uma criança que Rubel nos faz sentir. Ben me fez chorar e isso vale mais do que qualquer juízo racional que possa emitir. Afinal, já ficou claro que Pearl não é uma experiência que viva no mundo do racional e nem mesmo do real, mas sim do emotivo e do imaginário.
Nuvem, a penúltima canção, é o único porém. Não traz nada de novo, nem em fórmula, nem em poesia, nem em composição. Mas assim, que como vem parte, compõe o disco sem fazer chover. Para o bem e para o mal. Ou melhor, nem para o bem, nem para o mal.
Pois o que falta em nuvem sobra em quadro verde, o último vôo e também o derradeiro adeus de Rubel. É o tchau que ele e nós damos a Pearl, pintado com a excelência metafórica de sua poesia. Longo e rico em dissonâncias, é um adeus melancólico, é um abraço de saudade e é também um sorridente até mais. É um final perfeito, composto de silêncios e de toda a palheta de cores e sons a que fomos apresentados. Carrega ao mesmo tempo a experiência sensitiva latente e o ar surreal que permeia todo o disco.
Pearl é uma das poucas jóias que encontramos hoje. Mas é também uma prova irrefutável de que, em meio ao frenesi do mundo moderno e do pop, é possível fazer da calmaria boa música e destilar, daquela preguiça boa, um tanto assim de poesia. Que ainda é possível, como já fizeram Caetano, Gil e os Novos Baianos, magistralmente estabelecer o diálogo entre dois países de tradições culturais muito diferentes. E é lição maior de que para tudo isso é preciso muito pouco além de “uns bons malucos” e um chamado que vem de dentro. Como a pérola de uma concha. Como o de um homem para o mar.
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