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Entrevista Com Um Grande Anônimo

Você sonha? - ele me perguntou.

Não muito, por que?

Nada. Comigo acontece bastante.

Com o que você sonha?

Varia.
Às vezes com ursos, às vezes com a estátua do Ronald McDonald. Com minha ex-namorada. Uma porção de sonhos. Coisas assustadoras, como você pode ver.

Eu ri.

Sonha em ser um grande escritor? Aclamado pela crítica. Sucesso de vendas.

Eu não sonho em ser um grande escritor. Mas é isso que quero e sei que estou muito longe.
Agora, ser um grande escritor não tem nada a ver com sucesso de público e crítica. Mas sim, esses critérios ainda são melhores do que a auto-crítica de uma porção de gente.
Nem todo mundo que escreve é um escritor. E nem todo escritor é um dos grandes. As pessoas esquecem disso quando pegam uma caneta.

Mas você não gostaria de ser lido?

Quero fazer o meu melhor.
Ser lido, ser publicado, não importa tanto. A tendência é até mesmo esconder o que é realmente bom dos outros, vai ver é algum mecanismo de auto-defesa.
As melhores coisas que escrevo tenho escondido até de mim mesmo.

Como assim?

É aquilo que não boto no papel.
O trabalho de um poeta, de um escritor, exige tanto ou mais da precisão de observação do que da precisão de linguagem.
Acontece que sem essa última ele nunca vai escrever alguma coisa de valor.
O que vem se passando comigo é que minha visão anda melhor do que minha sintaxe e minha audição melhor do que minha semântica.

Você publica em algum lugar?

Já escrevi pra alguns sites, mas não sou nem grande, nem famoso, nem nada do tipo, e por isso existe um limite...até onde eu posso impor meu estilo. E isso é desagradável e já me fez desistir de publicar algumas vezes.



E qual seria esse estilo?

Por exemplo, se eu fosse fazer essa entrevista, eu diria: Chovia e isso era um transtorno. Não é tanto que a chuva em si seja um transtorno, mas esse é o estado de humor do seu entrevistado. Nesse caso, do entrevistador.
Isso já é dito na primeira frase.

E de fato está chovendo...

É isso que eu chamo de acuidade de observação...

E é com isso que implicam? Não vejo motivo...

Não. Com minhas linhas.

Que linhas?

Posso anotar no seu caderninho?

Pode, claro.

No caderno: Coisas
como essas
daqui.


E qual é a razão por detrás?

Varia. Posso escrever aí de novo?

Pode.

No caderno:

Ritmo.
Mancha gráfica.
Isolamento semântico.
Recombinação sintática.

E até mesmo o prazer 

do aleatório.


Quem você citaria como a maior influência em seu estilo?

Na prosa, Hemingway, sem dúvida.
Não é bem a reciclagem do estilo, essa é excessivamente batida. Mas a estrutura, os fundamentos básicos de concisão e elipse do neorrealismo, ainda são bastante atuais.
E mais além, por conta da crueza, são terreno fértil pra que eu imprima um estilo próprio que não deixa de ser uma mistura de tudo  que li - de Nabokov a Bukowski, passando por Cervantes - e da maneira que meu cérebro enxerga o mundo e trabalha com a linguagem.
Se enfiassem um parafuso na minha área de Wernick, eu provavelmente diria que meu estilo é quinta, neorrealismo, é uma forma de estrutura, estrutura e hipopótamo.

O que é a área de Wernick?

Uma área do cérebro responsável pelo processamento lexical. Eu posso querer te dizer rio e acabar dizendo penhasco.

Agora fez sentido, quer dizer, fez sentido porque não fez. E na poesia?

Nossa…Bukowski, Snyder, Jeffers, O’Hara, Pound, Drummond, Creeley, Rimbaud, Li Bai, tantos…mas se tiver que pôr menos coisa, põe os californianos.

Você citou o Bukowski duas vezes, ele é tão fundamental para você?

Sim. Mas eu não quero falar sobre isso. Angústia da influência. Outro tópico...

Quais são seus próximos planos?

Eu sei o livro que quero escrever e, bom, é o livro que estou escrevendo. Mas não posso te dizer nada sobre ele. O que eu posso dizer é que só escrevo o que vi, mesmo que de uma forma ficcional. Então, ainda que o desejo de escrever sobre os lenhadores do Alaska seja maior do que o de escrever sobre o que estou escrevendo, não espere que eu escreva um livro sobre isso.

É sobre o Rio?

Talvez.

A gente tem de encerrar. Quer dizer alguma coisa?

Você se incomoda de virar de costas? Não quero olhar sua bunda, não. É que tem um bicho no seu ombro.


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