“el adolescente, vacilante entre la infancia y la juventud, queda suspenso un instante ante la infinita riqueza del mundo. El adolescente se asombra de ser. Y al pasmo sucede la reflexión: inclinado sobre el río de su conciencia se pregunta si ese rostro que aflora lentamente del fondo, deformado por el agua, es el suyo”
Foi com esse olhar que vi, do Canal do Panamá à capital peruana, da
Cidade Sagrada à fronteira de São Pedro, na cidade das Índias, das putas,
novenas, uma América que a mim não pertence. Vacilando em dupla suspensão. Não
mais entre a infância e a juventude, mas entre a juventude e a maturidade. E
entre as placas de um continente partido que me engole, mas ao qual eu também
jamais poderei pertencer.
Definir a América Latina, esforço de Sísifo, traz obstáculos
intransponíveis a quem tem corpo que padece. À medida que apodrecemos, ela
devora os anos, mas como matéria viva-morta da qual fazemos parte, ela se
renova e regenera.
Cada tentativa de definição a engrandece e agiganta, se não em esplendor, em tamanho sempre. Como criatura tremenda
tragando tudo, como um labirinto de pumas. E é por isso que ainda que a
fizéssemos parar com o último ponto de Vargas Llosa, ela dormiria escura e
profunda, incomunicável e indizível, sangrando nas veias da Terra.
Cabe a mim dizer do que vi, ainda que não diga onde.
Foi Saramago quem disse: “O caos é uma ordem por decifrar”. A ordem indecifrável é, assim,
infinitamente caótica.
Ao invés de dividir a América por regiões geográficas ou culturais.
O Altiplano, o Cone Sul, o Caribe espanhol, o México e o Brasil
(particularmente isolados). Divido a América em templos e rituais. Em lugares
físicos e manifestações de forças estranhas.
Labirintos e símbolos. O corpo e o etéreo.
E sim, o gaucho, o capitão
do mato, Pinochet, o folclore amazônico, todos fazem parte do berçário
latino-americano. Mas não, dessa vez não os vi.
O que vi foi uma cidade labiríntica com seus soldados nas ruas. Bruxas
por vielas escuras. Uma outra, suspensa acima das nuvens, empilhada magicamente
em escarpas. Seus templos e deuses entre montanhas antigas. Vi um deserto onde
não há vida e onde os trens estão abandonados e os homens bebem sob a neve. Vi
os cães correrem soltos. Vi uma cidade colorida onde buganvílias escorriam das
sacadas, vi suas pedras se encherem de chapéus, vi suas praças se encherem de
putas. Vi o voo do condor sobre as profundezas. Vi cobras nas esquinas e anjos
nas Igrejas. Vi cidades pobres de ouro e prata. Vi eldorados de miséria.
Compreendi o espanto do colonizador e seu relato fértil e
fantástico. E compreendi o espanto do nativo e a real importância de se manter
viva a tradição. Na América Latina o passado é uma sombra presente.
Sei e tenho de dizer, que como brasileiro não me sinto parte de um
todo latino-americano, um todo caótico e múltiplo. Sei que as figuras de nosso
imaginário nacional, também heterogêneo, são muito diferentes das que povoam a
mitologia dos outros países da América, por sua vez diversos entre si. E muito
mais do que na Europa ou na África, tão mais distantes, me senti
verdadeiramente estrangeiro em alguns deles.
Porém mais do que eu, e acima de tudo, a América Latina é que está
suspensa. Entre o outro e o mesmo. Entre centro e periferia. Entre tradição e
progresso. Entre o passado e o futuro. Entre o físico e o etéreo. Entre homens
e deuses. Entre o real e o fantástico.
Entre templos e rituais.




maneiro
ResponderExcluirValeu!!
Excluir